domingo, 6 de junho de 2010

Carta sobre as memórias de um faroleiro velho.


Fui tomado de assalto por uma lembrança terrível de minha infância.

Ela chegou sorrateiramente e me invadiu as narinas quando decidi destrancar, após anos, a pequena escotilha de aproximadamente um metro de diâmetro que ocultava atrás de si uma outra câmara de serviços.

Todos os ácaros e toda aquela poeira poderiam ter me matado.

Mas é claro que não há duas câmaras de serviços num só Farol! Só que este era diferente, oras! Não se sabe por quê, ele foi construído com duas câmaras de serviços. Satisfeito com apenas uma, transformei a outra num depósito de quinquilharias. Ou seja, quase tudo que não fosse os dois macacões - as duas únicas mudas de roupa que tenho - , o quepe de marinheiro que achei há umas 15 semanas quando estava caminhando na praia, minha caixa de ferramentas, a "louça", que se resume a uma caneca, prato, garfo e faca de metal (como vê, não há razão para chamar isto de "louça"), uma bússola, uma pequena panela de ferro, um fogareiro, uma lamparina a óleo, um diário de bordo (em que anoto banalidades do cotidiano) e um lápis.

Havia uma pequena casa que ficava a poucos metros do Farol, mas o material vagabundo com que a construí se encarregou, junto com a última tempestade, de dar cabo dela. Aliás, foi justamente por isso que fui levado a improvisar uma casa no Farol, e é justamente por isso que não tenho acumulado muitos pertences.

Sim, claro, eu poderia simplesmente improvisar algo ao longo da torre, mas ela não é muito larga, não disponho de tanto espaço...por uma série de razões fui levado a destrancar a outra câmara de serviços e para que pudesse fazer daqueles quatro metros quadrados o meu dormitório, tinha de remover as quinquilharias de lá.

E foi então que me deparei com a maldita foto de família. Ao redor de uma mesa bem ornada e repleta de iguarias, lá estava eu, aos cinco anos de idade, com meus pais, avô paterno e os quatro irmãos, gordos, corados e ansiosos, porque famintos, hoje sou capaz de assegurar que nunca chegamos nem perto de estar. Aquela foto me fez lembrar de quando meu pai, numa daquelas noites em que não voltava terrivelmente bêbado disse-me que devia ingressar na Marinha. Dois anos depois, quando eu estava com sete anos de idade, minha mãe o deixou e levou a mim e a meus quatro irmãos para morar na casa de um comerciante argentino que ela dizia ter conhecido na missa de domingo.

Quando eu fiz quinze anos de idade o meu pai morreu.

O argentino, Maldonado, cuidou de minha mãe quando ela teve câncer. Mas quando ela morreu, eu já estava servindo, não a vi falecer. O argentino voltou para a Argentina e levou dois dos meus irmãos. A minha irmã casou-se com um rapaz da cidade em que morávamos e o meu irmão mais velho estava seguindo rigorosamente os passos do meu pai. O argentino resolveu entregá-lo a própria sorte.

O argentino partiu sem deixar vestígios. Quando voltei para casa nas férias de 1962 a minha irmã me contou tudo. Ela estava bem casada, grávida e parecia incomodada com minha visita. Fui embora e prometi nunca mais visitá-la outra vez.

Quando vim morar nesta ilha, trouxe o meu irmão mais velho e a sua inseparável garrafa de vodca comigo. Nós três vivíamos relativamente bem, até que um dia ele subiu até a lanterna do Farol e pulou de lá. A garrafa de vodca pulou antes e, pra dizer a verdade, a síntese da queda de ambos não foi uma das cenas mais bonitas que já vi na vida.

Isto aconteceu há vinte anos.

A questão é que, quando vi a foto, era como se a cena ali eternizada jamais tivesse acontecido. Eram todos fantasmas, inclusive eu. Depois de anos repetindo a mesma rotina, entre acender e apagar as lâmpadas do Farol, a minha memória tornou-se o retrato da câmara de serviços que eu pretendia ocupar naquela noite. Retiradas as coisas velhas, sobraram as paredes vazias, sujas e os cantos escuros. E eu.


sexta-feira, 14 de maio de 2010

Carta sobre a Esposa do Marinheiro.


Como esta mulher me comove!

Páginas, cantos, versos e lendas enaltecem o seu silêncio resignado e a sua espera constante. Crêem-na atada ao cais, paciente. Crêem-na frágil, gasta, cansada, deserta, ilha.
Crêem-na obediente e nula.
Crêem-na solitária.

Boatos atestam sua frigidez. Homens insensatos a cortejavam quando o marinheiro estava ausente.
Boatos garantem sua fidelidade imaculada, a despeito dos vestígios das outras muitas mulheres. Tantas mulheres quanto as ondas do mar, teve o marinheiro. E ainda tinha. Boatos asseguram.

O marinheiro, que a ama, justificava assim a sua existência. Ela, sempre grata e fervilhando de paixão, retribuía com um largo sorriso espontâneo.

Ontem encontrei a esposa do marinheiro. Ela, mais uma vez, comoveu-me. Nada sabia da atracação da balsa que trazia o seu marido. Eu sabia, porque vinha do cais.
Eu poderia jurar que ela corou. A ilha, afogadilha, esvaiu-se em seu novíssimo vestido vermelho. Crédulo pensava: "rubra de saudade, vai às pressas rever o marido", quando notei, distraído, logo adiante, um belo moço jovem que a aguardava impaciente.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Uma Carta sobre Passageiros.




Às vezes, quando chovia, eu procurava me entreter com uma ampulheta, debruçada sobre o púlpito da proa, com o vento sussurrando a solidão nos meus ouvidos. Amargava o passado, lembrando das pessoas que estiveram a bordo. Sentia-me culpada por terem resolvido não permanecer, enquanto as observava partindo através da escotilha. Estremecia ao pensar na solidão das viagens e nas tenebrosas despedidas.

Meus diários de bordo estão cheios de poemas de mau gosto, entre notas sobre ventos e coordenadas geográficas. Mal havia espaço para tantos rabiscos. Em minha filosofia pouco sofisticada, conformava-me pensando que assim como as desilusões, as tempestades vêm e vão... No dia seguinte, a calmaria me convidaria a tomar um trago com uma amnésia conveniente.

Não vou dizer que não me queixo mais. Contudo, tornei este soliloquiar menos freqüente, menos incisivo. E minhas amarguras, menos loquazes. Conheci outras pessoas, que entraram e saíram pelas escotilhas...e algumas delas num silêncio sedutor. Amei-as em seu silêncio misterioso. Não sei por que, mas vi pureza naquele silêncio.

Deixei que se entretivessem da maneira que julgassem melhor enquanto oferecia a elas o melhor entre os piores vinhos que guardava para ocasiões especiais. Elas observavam a mobília modesta, os lençóis amarelados, a louça por lavar, ainda que pouca. Observavam alguns dos meus trajes saboreados pelas traças e as rugas que começavam a sulcar o meu rosto. Continuavam em silêncio. Não esperavam ouvir quaisquer histórias, nem sobre pescadores, nem de marinheiros solitários. Depois repugnavam tudo com os olhos, preferiam hospedar-se em hotéis luxuosos, administrados por indivíduos de dentes muito brancos e perfumes franceses. Assim, suponho, deve ser para eles o mundo em seu retrato fiel: branco, limpo e por que não, francófono.

Sei que no fundo, não recusavam a hospedagem em razão da modéstia do lugar. Há alguns anos atrás o meu barco teria causado muito boa impressão. Evadiam-se por vergonha, não de mim, mas das lentes que escolheram acomodar sobre os próprios olhos. Não me preocupo com estes nobres visitantes. Orgulho-me de ter finalmente entendido o significado da palavra “passageiro”.

Mas eles virão, sempre. Observar o Horizonte, erguer o peito, citar uma frase qualquer de Fernando Pessoa e partir, cheios de nada.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Carta sobre um delírio.


Remo.
Remo devagar, ele dorme. Remo e respiro tranquilamente, enquanto ele ressona. Jamais senti tamanha paz sobre a água.

Ele não faz idéia, porque dorme. Ponho os olhos no mar e depois nele, olhos no mar, olhos nele. Devagar, enquanto remo.

Ele se vira, resmunga, desperta, me olha, sorri. E volta a dormir. E a ressonar e a me esquecer. Talvez eu não exista nos seus sonhos, mas o resto do mundo desaparece dos meus.

Remo e não há farol que magnetize o meu olhar enquanto ele dorme. Remo na direção do seu olhar, ao qual nunca chego.

Remo e submeto minhas minguadas capacidades físicas ao prazer de embalar seu sono. Descanso enquanto remo. E remo por horas, dias, meses.
Remo.



Imagem: Claude Monet - The Rowing Boat.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Carta sobre o Amor.


Da proa, as numerosas colinas que se exibiam no horizonte desafiavam até os olhos mais atentos; pareciam brotar a cada novo olhar. Eram ondulações intermináveis. Ocupada com este pequeno exercício oftalmológico, mal pude notar dois braços que se agitavam no mar. Mas a rapidez do meu olhar era inversamente proporcional à minha capacidade de compreender o que meus olhos haviam acabado de captar. Voltando-me para as colinas verdes, no entanto, algo latejava em minha mente. "Homem ao mar", pensei, reagindo ao meu estímulo visual. Logo recompus os fatos: eu estava sozinha naquela embarcação (logo nenhum tripulante poderia ter precipitado do barco) e os dois braços que se agitavam apenas compunham os movimentos de alguém que nadava, com bastante energia.

Então as colinas desapareceram do horizonte. E os meus olhos míopes haviam finalmente percebido uma figura masculina aparentemente afeita ao mar. Mas onde iam os seus braços morenos, que já escapavam novamente aos meus olhos? Iam longe? Iam por quê?

De repente, a figura se detivera em suas braçadas e virou-se. Mas eu não havia feito o menor alarme. De longe, nem que a minha curiosidade fosse a mais ambiciosa na história da humanidade eu poderia perceber naquele rosto alguma expressão. Deixei o barco para trás e pulei, disposta a ir em sua direção, mas os meus braços franzinos agitavam-se desajeitadamente, embora me garantissem algum deslocamento. O homem então passou a nadar em minha direção cada vez mais rápido, o que me fez deter.

Perto, de onde meus olhos míopes podiam até mesmo distinguir uma discreta cicatriz em seu belo rosto, vi o seu sorriso, os seus olhos, os seus olhos, os seus olhos. Lembrei-me dos Faróis. A sua respiração ofegante rompia as suas palavras em sílabas, embora eu já não estivesse mesmo atenta à mensagem que ele procurava transmitir. Num mundo com tantas e sedutoras cores, eu havia substituído o verde das colinas pelo castanho dos seus olhos no governo da minha íris. Eram tão raros aqueles olhos castanhos.

A mensagem persistia, mas desta vez coerente: "Seu barco! Ele se foi!"

Eu havia deixado o barco à deriva quando pulei. É ridículo, mas aconteceu. Esqueci-me de fundear...e o barco se foi.

Por dois olhos castanhos.
Por dois olhos estranhos.
Por dois braços morenos.

A verdade é que hoje, meu barco importa bem menos.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Carta sobre ferrugens e esquecimento.


Nem só de acender e apagar lâmpadas vive um faroleiro.


Hoje, após acordar e sair para sentir a brisa que vinha do mar, voltei-me e olhei fixamente o Farol. As incansáveis chuvas de novembro haviam resolvido dar trégua, portanto, era hora de avaliar alguns estragos. Apanhei um velho balde e um velho pano num canto qualquer da casinha e subi lentamente as escadas. Pensamento leve, andar desempertigado, trabalho árduo a executar. Após as estações chuvosas, é preciso eliminar quaisquer possíveis causas de mofo ou infiltrações, removendo toda a água empoçada na laje. É necessário ainda verificar, limpar e desobstruir calhas, pingadeiras, ralos. Checar o estado da pintura, reforçar os impermeabilizantes, substituir telhas danificadas.


Apesar de imponentes e resistentes, os Faróis necessitam de reparos periódicos, especialmente na pintura e no revestimento das paredes. Mas não vou mentir. Para um faroleiro que vive sozinho, isolado numa ilha, não é fácil garantir uma manutenção impecável. Por um lado, é grande o número de faróis que o departamento de sinalização náutica tem de atender periodicamente, o que os obriga a eleger prioridades; por outro, as maravilhas modernas e parafernálias inteligentes como o GPS estão, gradativamente, colocando nossas torres no esquecimento. Mas eu sou o guardião desta torre, na Ilha do Fim do Mundo. A mim cabe prolongar ao máximo a existência do Farol, razão da minha própria existência. Pergunto-me, contudo: eu, que sirvo há tantos anos nesta ilha, onde estarei daqui a cinco ou dez anos?


Permenecerei aqui, na ilha, com meu companheiro de ferrugens. Sou um homem velho. Os anos também enferrujaram-me as expressões, cansaram-me os membros, esgotaram-me as capacidades físicas. Somos dois edifícios abandonados à implacabilidade do tempo e das marés. Assistiremos os dois aos combustíveis exaurirem, as luzes enfraquecerem e apagarem-se, restando apenas as estrelas do céu.
[A foto, retirada do site da Marinha de Portugal, pertence ao acervo pessoal do Faroleiro João da Silva Neto, que serviu no Farol das Berlengas [Portugal] por volta de 1950, com mais alguns companheiros. http://www.marinha.pt/extra/revista/ra_abr2003/pag14.html]

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Cartas de um farol na Costa de um Oceano Pacífico.


O sopro inconfundível da recompensa deslizou sob as minhas velas.


Mas, ao fitar o futuro como quem fita a pureza de um sorriso infantil, dou-me conta de que para além dessa sensação que embaralha todos os músculos da minha face de modo a compor uma nova expressão - a alegria - a janela do porvir ostenta um véu opaco.


Temo, pois.


Ergo, porém, as mãos para sentir a direção do vento...e procuro não perguntar às gaivotas que voam baixo pela chuva que pode não vir... abro os braços ao desconhecido e lanço as moedas de ouro ao mar. Porque as jóias mais valiosas que ostento são meus olhos. Olhos que apontam outros olhos. Olhos que me mostram faróis.


E quando sinto perfume inconfundível da terra... mal posso furtar-me ao desejo de atracar.